
Locais de venda do livro em Porto Alegre
ISASUL
Rua Riachuelo, 1236 - 51 99367.0575
TAVERNA
Rua dos Andradas, 736 (Casa de Cultura Mário Quintana ) 51 3321.4771
Em SP no site da editora www.fotoeditorial.com
Há momentos em que a fotografia deixa de ser apenas testemunho para se tornar consciência. O trabalho de Mirian Fichtner sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul pertence a essa linhagem rara de imagens que não apenas registram, mas instauram um campo ético incontornável diante do qual não há neutralidade possível. Assim, com o olhar e a sensibilidade de quem conhece a arte, Eder Chiodetto abre seu texto curatorial sobre o livro Quando começa a chover o coração bate mais forte, de Mirian Fichtner, que, para nossa sorte, foi lançamento nacional em Porto Alegre dia 25 de junho, às 19h, na Cinemateca Paulo Amorim. Na ocasião foi exibido o documentário curta-metragem de mesmo nome, sobre as enchentes de maio de 2024 no RS. O filme, assim como o livro, vai além de um registro histórico, mergulha no olhar dos atingidos, tecendo um inventário dos medos, traumas na vida dos que perderam tudo, especialmente as populações periféricas negras, mulheres, idosas e crianças.
Mirian estava em Porto Alegre em maio de 2024. Gaúcha radicada no Rio de Janeiro, havia viajado ao sul para visitar a família quando foi surpreendida pela enchente. “Chovia ininterruptamente há mais de uma semana. Nas periferias e na região metropolitana, os pássaros pararam de cantar. Os cães não latiam. Nada mais parecia ter vida nestes lugares, a não ser a água. O silêncio sinistro e perturbador só era rompido pelo som da urgência dos helicópteros e das ambulâncias. Profissão repórter: me senti convocada. À revelia do luto pela morte recente de minha mãe, fotografar tornou-se imperativo”, refletiu a jornalista e fotógrafa experiente, com uma carreira dedicada ao jornalismo e à arte. “O Rio Grande do Sul estava submergindo e os gaúchos contabilizavam o incalculável de suas perdas. Sem água e luz por dez dias, eu presenciava o inimaginável: o maior desastre por inundação da história do estado, e também um dos maiores ocorridos no Brasil”, prossegue.
E assim, dedicou-se a registar aquele momento tão único quanto assustador, uma tragédia climática anunciada, negligenciada pelo poder público e de proporções que o Brasil ainda não havia visto. O resultado está no livro de Mirian, um relato poético, triste, belo e verdadeiro da enchente de 2024. “Tentei traduzir com imagens o que os números das estatísticas não mostram. A emoção superava as palavras e as imagens falavam por si. A minha sensação era a de estar num filme de terror, documentando o fim do mundo. Evitei fotografar as pessoas e mostrar seus rostos dilacerados pela dor. Entendi, olhando em seus olhos, que uma fotografia dessas iria simbolicamente prendê-los eternamente àquele momento. Não os fotografar naquela situação era o único manifesto de esperança que eu poderia oferecer. Sim, há imagens que não devem ser feitas. Foi algo que aprendi naqueles dias, diante da dor dos outros”, relembra a autora.
Eder Chiodetto, em seu texto, diz que “ao percorrer estas páginas, somos atravessados
por uma visualidade de alta densidade formal. A composição rigorosa, a leitura aguda da luz e o uso
expressivo da cor, que tensionam até o limite entre o belo e o insuportável, inscrevem o ensaio de Fichtner em uma tradição que dialoga com a pintura, sem jamais abdicar da urgência do real. Há, em suas imagens, um domínio estético que não suaviza a tragédia, mas a torna ainda mais incisiva. É precisamente essa fricção entre forma elevada e conteúdo brutal que faz com que cada fotografia se fixe na memória como um vestígio impossível de apagar.
Na obra de 212 páginas, em papel Matérica Craft 250 g e couche fosco 150 g estão 102 fotografias, intercaladas com os textos de Mirian, de Eder Chiodetto e também de Carlos Nobre e José A. Marengo, que trazem o contexto desta tragédia, com dados estatísticos, estudos e pesquisas. Eles afirmam que o livro e o filme Quando começa a chover o coração bate mais forte são importantes ferramentas, através das fotografias e do audiovisual, para a conscientização sobre as mudanças climáticas e a urgência de sensibilizar e preparar as populações para os eventos extremos. “As novas gerações devem assumir a liderança na busca de trajetórias de sustentabilidade para o planeta com ênfase em justiça social e climática. Se não mudarmos o rumo do aquecimento global e das práticas devastadoras do meio ambiente, muitas regiões como o Estado do Rio Grande do Sul se tornarão inabitáveis”.
Sobre a autora:
Mirian Fichtner é jornalista, fotógrafa e documentarista, radicada no Rio de Janeiro. Atuou nos principais jornais e revistas do Brasil. Possui vários livros publicados e exposições realizadas no Brasil e exterior. Recebeu mais de 18 prêmios nacionais e internacionais por seu trabalho fotográfico. Em 2006, criou a Pluf Fotografias e Audiovisual para atender o mercado editorial, corporativo e audiovisual. Em 2021, estreou na produção, direção e fotografia de longas-metragens com o documentário Cavalo de Santo, premiado em mais de 15 festivais no Brasil e exterior, entre os quais recebeu quatro Kikitos no 49º Festival Internacional de Gramado. O documentário está em cartaz na plataforma GloboPlay. No ano de 2026, o Cavalo de Santo serviu de referência para o enredo da G.R.E.S. Portela. Em 2025, produziu, dirigiu e fotografou o documentário Quando começa a chover o coração bate mais forte, sobre as enchentes de maio de 2024, no Rio Grande do Sul, que deu origem ao livro homônimo.